“O Caderno da Morte”, adaptação do mangá “Death Note” nos teatros

Estreou em outubro de 2008 em São Paulo a peça “O Caderno da Morte”, adaptação do mangá “Death Note” (de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata), famoso entre os fãs brasileiros de cultura pop japonesa, que fazem cosplay dos personagens em eventos de animê e mangá por todo o país.

Na já manjada trama, um misterioso caderno causa a morte de quem tem o nome escrito nele. O tal Death Note é encontrado pelo estudante Light Yagami. Depois de perceber o efeito do novo ‘brinquedo’, o jovem começa a exterminar criminosos, ganhando a alcunha de Kira (pronúncia “ajaponesada” para “killer”). Logo ele passa a ser caçado por L, o maior detetive do mundo.

Kira mata somente assassinos e bandidos, lembrando muito a maneira de agir de Dexter, protagonista da série homônima americana. Ambos são justiceiros com métodos pouco ortodoxos que aos poucos são caçados pela policia. Mas Kira acaba ficando cada vez mais perigoso e matando inocentes, até que passa a receber a ajuda de uma ‘fã’ sua. A jovem apresentadora de TV, Misa Amane.

“Death Note” foi publicado originalmente no Japão pela revista mensal Shonen Jump entre 2003 e 2006 com 108 capítulos, gerando depois 12 volumes encadernados, publicados no Brasil pela editora JBC, junto com especial “How to Read” (numerado como volume 13 na série).

A obra também foi adaptada para uma série em animê, produzida pelo estúdio Madhouse que totalizou 37 episódios para TV. “Death Note” também ganhou três filmes live-action para cinema, virou romance em livro e até três games lançados para Nintendo DS. Faltava chegar aos palcos dos teatros, faltava…

“Death Note” chegou aos palcos aqui no Brasil e conquistou um bom público enquanto esteve em cartaz gratuitamente no SESI Vila Leopoldina. No elenco estão Bruno Garcia, Miguel Atênsia, Rudson Marcello, Thais Brandeburgo e Vinicius Carvalho, com direção de Alice K e montagem da Cia. Zero Zero de Teatro. A peça voltou em cartaz em 2009 no Centro Cultural São Paulo.

As versões brasileiras. Os atores que deram corpo para Ryuk, L e Misa no Brasil

BRUNO GARCIA (RYUK)

Como você foi convidado pra participar da peça?
Bruno Garcia: Eu não fui. Fui um dos idealizadores.

Como foi compor o seu personagem?
BG: Foi bem difícil. Primeiro porque os Shinigamis nunca foram feitos por atores, então minhas referências vieram ao animê. Junto com a diretora Alice K, fizemos um treinamento corporal bastante intenso que ajudou bastante na pesquisa do corporal do personagem.

Você já conhecia ou era fã de animês e mangás?
BG: Sim, sou fã de animês já faz um tempo. Desda primeira vez que “Cavaleiros do Zodíaco” passou na TV, em 1997, acho. E sempre fui muito fã de quadrinhos. Sou um grande colecionador de quadrinhos da Vertigo também. Minha prateleira de mangás é bem tímida até, comparada ao restante (risos).

Qual seu desenho/quadrinho favorito?
BG: Putz, isso é muito difícil. Acho que em quadrinhos, é “Sandman”, do Neil Gaiman. Em animê, creio que seja “Evangellion”. Não que eu reveja-os constantemente, mas acho que são os que mais indico pros meus amigos. Também, ultimamente, tenho me impressionado muito com “Homunculus”, de Hideo Yamamoto. E também “Frequência Global”, de Warren Ellis.

O que você pode nos falar sobre seu contato com o público? Eles têm curtido?
BG: O público tem gostado bastante do espetáculo, ainda bem! Tanto os fãs do animê, quanto o público comum.

De onde surgiu a ideia da adaptação?
BG: Eu penso em teatro quase o tempo todo. Muitas coisas me dão idéias para uma cena, ou um personagem. Quando assisti “Death Note”, uma das primeiras coisas que me passou pela cabeça foi que aquela história poderia ficar muito interessante no palco. Depois disso, a idéa amadureceu muito em conversas com a Thaís, o Miguel (atores) e o Nei, que começou a montar junto conosco, mas teve que sair durante o processo.

Como foi o processo da dramaturgia?
BG: Foi trabalhoso, árduo, e fatigante (risos). Essa foi a minha maior incursão pela dramaturgia, e foi incrivemente difícil. No final das contas, não foi um processo solitário. Adaptar um trabalho tão elaborado e cheio de detalhes como o “Death Note” só foi possível com a ajuda de todo o elenco e da diretora.

Como foi o longo período das primeiras idéias até a obra chegar aos palcos?
BG: Escrevemos o projeto em dezembro, e a peça estreou em outubro. Foi quase um ano de pesquisa intensa dentro e fora de sala de ensaio. Muitas pessoas nos ajudaram, estimularam, e salvaram nossa pele muitas vezes!

Como vocês escolheram o elenco e a diretora.
BG: Foi bem natural, na verdade. Eu, Thais e Miguel somos atores e fãs de mangás. Foi natural que nos juntássemos para desenvolver o projeto. Rudson e Vinicius são nossos parceiros de outras peças. E Alice K, foi a diretora que achamos ideal, porque ela faz um trabalho de mistura da cultura japonesa com teatro brasileiro há muito tempo. Todos nós já nos conhecíamos e tínhamos trabalhado juntos antes.

E finalmente, por que a escolha de Death Note?
BG: As questões da violência que Death Note coloca são as questões que têm nos tocado ultimamente. A onda de criminalidade aumentou muito, e se tornou assunto comum em vários lugares. Nós moramos em São Paulo, e não conseguimos escapar disso. É sufocante. “Caderno da Morte” é como um grito contra essa pressão.

MIGUEL ATÊNSIA (L)


Como você foi convidado pra participar da peça?

Miguel Atênsia: Um dia o Bruno virou pra mim e falou: “Vamos montar o ‘Death Note’?”. Eu respondi que achava boa idéia adaptar um mangá para o teatro, mas a princípio achava que seria muito complicado fazer “Death Note”, mas ao mesmo tempo o desafio era animador. Acho necessário colocar aqui que nós já éramos amigos. Nós nos formamos em Artes Cênicas na Unicamp, assim como todo o elenco, e já tínhamos trabalhado juntos em outros projetos, mas nunca os dois atuando, essa montagem juntou tudo isso. Então começamos a pensar um projeto e fomos formando a equipe ao longo do processo, convidar a Alice K. para dirigir foi muito natural, já havíamos trabalhado juntos em outras peças e ela tem um trabalho muito rico com a cultura japonesa, além de ser uma grande diretora.

Como foi compor o seu personagem?
MA: No começo do processo todo mundo improvisou todos os personagens, até mesmo a Thais fez os personagens masculinos, e nós nos arriscamos algumas vezes nas personagens femininas, mas isso era muito cômico e só era útil para descontrair o ensaio. Mas isso foi muito importante não só pra desenvolver a dramaturgia e encontrar do que cada cena se trata, mas também para ver como cada um imagina e vê os personagens. Então quando ficou decidido que eu faria o L, já tinha visto ele no corpo dos outros atores e considerei as diferentes facetas para compor o personagem, aquilo que surgiu em comum tratei como sendo essencial.

Qual foi a maior dificuldade neste seu processo de criação? E qual parte gostou mais?
MA: Quando comecei a estudar o L, assistia muito o animê sentado como ele, comendo doces, segurando os objetos com as pontas dos dedos e prestando muita atenção na sua qualidade vocal e postura corporal. A minha grande dificuldade foi deixar isso tudo orgânico, o L é um personagem muito instigante, mas suas manias me soavam inverossímeis quando assisti o animê pela primeira vez, mas é justamente suas estranhezas, aliado a sua índole e determinação, que faz dele um personagem especial. Como o L é muito introspectivo e seu rosto quase sem expressão esconde uma mente brilhante e um olhar único, tive imensa dificuldade de encontrar essa qualidade e ainda estou buscando ela, mas me ajuda imaginar que meu corpo é como um pião rodando no chão, quanto mais rápido o pião gira, mais estático ele parece, é assim que vejo o L, por mais que seu corpo pareça relaxado, internamente sua mente gira com muita intensidade, e eu permito que essa intensidade escape somente pelos olhos. Outra coisa que estou descobrindo durante as apresentações é segurar os objetos, os doces e o caderno principalmente, como se eles fossem mais pesados do que eles realmente são, mas não tento demonstrar isso como se fosse mímica, acho que no dia a dia não damos muita atenção aos objetos e nos preocupamos somente com nós mesmos, imaginar isso me ajuda a jogar a atenção para fora de mim e ficar presente. Descobrir essas coisas diante as dificuldades que aparecem é a parte que mais gosto.

Você já conhecia ou era fã de animês e mangás?
MA: Comecei a assistir animês quando passava “Cavaleiros do Zodíaco” na Manchete, o primeiro mangá que li foi “Samurai X”, e sempre tive grande interesse na cultura japonesa, mas foi nos últimos anos que comecei a conhecer mais e ver o mangá e o animê como grandes potencias de expressão artística.

Qual seu desenho/quadrinho favorito?
MA: Essa pergunta é difíci, claro que “Death Note” é um deles, mas gosto muito de “Evangelion” também, acho que as animações japonesas futuristas tem um clima único, recentemente assisti Ghost in the Shell e adorei. E agora estou lendo o manga “Buda” de Osamu Tezuka e é incrível.

O que você pode nos falar sobre seu contato com o público? Eles tem curtido?
MA: Nunca tive um retorno tão forte e apaixonado do público como está acontecendo com “O Caderno da Morte”, acredito que isso se deve a força do mangá e também é reflexo desse movimento crescente da cultura pop japonesa no Brasil, e nossa intenção ao levar isso para o palco era encontrar a força que essa história tem sendo feita ao vivo, acho que o encontro do mangá com o teatro cativou a todos nós e isso me deixa muito feliz.

Vocês tem interesse em continuar a apresentar a peça? Ou filmar e distribuir em DVD?
MA: Claro, gostaríamos de viajar pelo Brasil todo apresentando por muito tempo. mas não pensamos em filmar para distribuir em DVD, é difícil ver uma filmagem legal de uma peça de teatro, pois perde qualidades que só existe ao vivo, mas vamos filmar como caráter de registro.

Você tem algum site próprio, comunidade da peça ou até mesmo sua, para que os fãs entrem em contato?
MA: Um espectador fez uma comunidade no orkut, “O Caderno da Morte – Teatro”, onde nós estamos participando e ouvindo as criticas de quem assistiu. Ainda não temos um site, mas agora estou pensando que seria legal ter.

THAÍS BRANDEBURGO (MISA)

Como você foi convidado pra participar da peça?
Thaís Brandeburgo: Eu ajudei a fazer o projeto da peça, assim quando o projeto foi aprovado eu já estava participando.

Como foi compor o seu personagem?
TB: Faço vários personagens ao longo da peça, os primeiros ajudam a compor o enredo da trama, por serem passagens rápidas não há espaço para o aprofundamento da personagem, que devem ser as mais claras possíveis num tempo pequeno. A personagem Misa Amane surge da metade para o fim da peça, ela tem um espaço um pouco maior de desenvolvimento. Para interpretá-la foi fundamental o estudo dos quadrinhos e dos animês, entender a lógica da personagem, a quê veio, o porquê de suas ações e como se relaciona com os outros personagens. Os figurinos foram de vital importância para compor o gestual. O tom de voz veio da combinação dos gestos com as ações. Foi preciso muito ensaio e orientações da diretora até chegar neste resultado, é um trabalho conjunto.

Qual foi a maior dificuldade neste seu processo de criação? E qual parte gostou mais?
TB: A maior dificuldade foi tentar mostrar tudo o que a Misa representa, quem ela é, em três cenas. Da adaptação como um todo. A maior dificuldade foi fechar o roteiro, escolher as cenas essenciais, qual a ordem das cenas, como seria o desfecho da peça. Uma das partes mais gratificantes foi o reconhecimento dos fãs pelo trabalho.

Você já conhecia ou era fã de animês e mangás?
TB: Eu já conhecia animês e mangás e gosto muito dos que conheço.

Qual seu desenho/quadrinho favorito?
TB: Meu desenho favorito era o “Death Note” antes de montar, até que assisti tanto que enjooei (risos). Agora acho que é o “Evangelion”. Meu quadrinho favorito é o “Homúnculus”.

O que você pode nos falar sobre seu contato com o público? Eles têm curtido?
TB: O contato com o público tem sido ótimo, de um modo geral eles têm curtido muito, alguns voltam pra assistir duas ou três vezes! Eles sempre dizem de quem eles gostaram mais na peça, o que acharam da adaptação e se viram algum problema falam também, sem cerimônias, o que é muito bom para o crescimento do espetáculo.

Vocês tem interesse em continuar a apresentar a peça? Ou filmar e distribuir em DVD?
TB: Temos muito interesse em continuar com essa peça sem data pra acabar, inclusive de voltar em mais temporadas em São Paulo em outras regiões e viajar também. Nós vamos com certeza filmar o espetáculo, é um material importante pro grupo e pra dar continuidade ao trabalho. Mas vender o DVD precisa ser pensado com calma, não sei se daria certo, o teatro só existe com a platéia, é uma linguagem que não cai muito bem em monitores.

Você tem algum site próprio, comunidade da peça ou até mesmo sua, para que os fãs entrem em contato?
TB: No Orkut há a comunidade da peça: “O Caderno da Morte – Teatro” feita por um fã, da qual fazemos parte e acessamos sempre para ver os comentários e responder perguntas se for o caso. Tenho também minha página no Orkut onde quem quiser pode entrar em contato comigo, ou pelo email da companhia zerozeroteatro@yahoo.com.br.

Texto originalmente escrito em 2008 para a revista Neo Tokyo, com a colaboração de Carolina Michelli – Foto: Divulgação: Alexandre Sales.

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Sobre o autor

David Denis Lobão