Já não é o momento do Oscar não separar mais por gênero as categorias de interpretação?

“Artista não tem sexo”! A famosa frase já foi dita (ou atribuída a) em ocasiões variadas por Silvio Santos, Sidney Magal e Rogéria, dentre outros. Com este contexto começo o objetivo deste texto: não seria o momento do Oscar parar de separar as categorias de interpretação por sexo? Por que atores e atrizes concorrerem de forma separada?

A divisão em interpretação até fazia sentido quando nos anos 1930, quando homens dominavam os cinemas e era rato papéis bons para mulheres, mas faz ainda hoje em dia?

O que me levou a pensar sobre este tema foi a recente discussão de que poucos atores afro-americanos foram indicados ao Prêmio da Academia de Cinema dos Estados Unidos. A imprensa estadunidense criou um polêmica comparada ao momento em que “Brokeback Mountain” perdeu o Oscar de melhor filme. Seriam os votantes homofóbicos e racistas ou estariam apenas elegendo realmente os melhores do ano?

Alguns redatores mais radicais chegavam a sugerir criar categorias como “Melhor Ator Caucasiano” e “Melhor Ator Afrodescendente”. Outros propunham um boicote a premiação e quem discordava comparava a solenidade cinematográfica com a corrida de cem metro da Olimpíada, dominada por atletas negros. Por que boicotar o Oscar e não um esporte? Bem, existem diferenças claras. Um prêmio de atuação é eleito por algumas pessoas (um juri) baseado em um talento artístico; já uma competição de corrida leva em conta um dom (e esforço, treinamento…) de uma pessoa individualmente, sendo claro seu mérito próprio, sem arbitragens para definir o vencedor.

Tudo é muito complexo. Mas, algumas coisas, são claras. Em uma competição esportiva homens e mulheres disputam separados por uma diferença física, biológica. Seria complicado em uma competição única, as mulheres atingirem certas marcas alcançadas por atletas masculinos. Está certo que cada vez mais esta linha fica tênue com o Comitê Olímpico Internacional reconhecendo a participação de transexuais não operadas nos jogos; além das evoluções fisiológicas naturais das mulheres (não tem como comparar um atleta de 1950 com as de hoje, até mesmo em altura), combinadas com novas formas de treinamentos e medicamentos envolvidos.

Mas e no cinema? Um homem e um mulher podem competir tranquilamente sem a distinção física para atrapalhar o julgamento. Inclusive um homem pode competir ao prêmio por interpretar uma mulher, e vice-versa. Existem casos ainda de homens que interpretam transexuais, ou mesmo atrizes transexuais concorrendo em diversas premiações.

A resposta parece simples: a separação ocorre para lotar o evento de estrelas. Com as categorias separadas em ator e atriz, mais estrelas comparecem à festa. Algumas premiações como Globo de Ouro e SAG chegam a criar mais subcategorias, como melhor ator de drama e melhor ator de comédia. Unificar o prêmio de interpretação seria péssimo para um mercado que envolve transmissão da cerimônia na televisão e toda uma mídia em revistas, jornais e sites de celebridades, que expõe as marcas dos anunciantes. Quem quer a solenidade vazia de astros?

Enquanto na categoria de interpretação segue divida em categorias que não correspondem à ideais de igualdade entre sexos e gêneros, em outras ocorre o oposto. Diretores/diretoras e roteiristas (homens e mulheres) competem todos juntos em categorias únicas, normalmente dominadas por homens.

Unificar a categoria de interpretação pode ser um passo importante para acabar com vários ismos, como machismo e feminismo. Mas quem vai querer isto? Provavelmente nem o público.

Texto originalmente publicado em 30 de janeiro de 2016.

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Sobre o autor

David Denis Lobão